Para historiador Itajaí vive um período de estagnação política e econômica

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Itajaí completou nesta semana 157 anos de emancipação política e para o historiador Magru Floriano, a cidade passa por um momento de estagnação política e econômica. Taxativo, o escritor diz que os dias são de “caranguejo”, em que a política nos leva a andar a passos largos para trás. Entre as polêmicas, Magru também questiona a fundação do município, trazendo à tona um interessante debate sobre o início da nossa história.

Acadêmico do curso de História da Univali e coordenador do site ‘Itajaí de antigamente’ [facebook], Magru é autor de vários livros como “Itajaí em Chamas”, “A lenda do Monte Tayó” (contribuição à centenária discussão sobre o significado do nome da cidade) e “Itajaí: uma cidade em busca de seu fundador” (textos compilados), entre outros. Foi presidente da Academia Itajaiense de Letras, da Associação dos Professores da Univali, do Clube da Imprensa de Itajaí e da Associação de Amigos do Museu Histórico e Arquivo Público de Itajaí. Atualmente dedica-se à elaboração da Enciclopédia Itajahyense, um projeto que visa reunir informações históricas sobre o Município em plataforma digital.

Com toda essa bagagem sobre a história de nossa cidade, Magru Floriano foi convidado pelo Jornal Sem Censura para uma conversa sobre o passado e o futuro de Itajahy, como carinhosamente insiste em chamar nossa terra.

Sem Censura: Itajaí completa nesse mês de junho 157 anos de emancipação política. Como você analisa essa trajetória política do nosso município?

Magru: Há muito que vejo Itajahy fazendo o papel de um caranguejo, andando para trás tanto no campo político como no econômico. A Era Bellini – da qual o atual prefeito faz parte, não obstante por algum tempo lhe ter promovido oposição de fachada, é o auge desse descaminho no mangue da política catarinense. Quem conhece um pouquinho da história da cidade não pode deixar de perceber que há muito não formamos novas lideranças com destaque nos cenários estadual e nacional. Foi comum, no século passado, termos de dois a quatro líderes importantes atuando simultaneamente. A oligarquia Müller nos legou Lauro, Eugênio, Andrade e José Eugênio, projetando-se até Colombo Machado Salles; a oligarquia Konder nos legou Victor, Adolpho e Irineu, projetando-se até Jorge e Antônio Carlos Konder Reis. Quem nos legou a Era Bellini? Jandir Bellini parece-me com um grande bagre que, demonstrando a intenção de proteger sua prole a coloca na boca ao primeiro sinal de perigo, mas, infelizmente, esquece de devolvê-la ao meio ambiente assim que o perigo passa, acabando no seu estomago. Gern, Pissetti, d’Ávila, Zanelatto…. foram todos devorados por seu próprio criador. Sobrou o prefeito Volnei Morastoni que é filho tardiamente adotado e, por isso, conseguiu fugir da boca paterna sem, contudo, perder sua proteção política.

Sem Censura: O mesmo cenário vale para o setor econômico?

Magru: Vale ainda mais para o setor econômico. Qual foi a última vez que tivemos morando em Itajahy, participando de sua vida pública, um grande empresário com dinheiro no bolso e poder de decisão em termos de investimento? No passado tivemos os Asseburg, os Malburg, os Lins… para Itajahy afluiam grandes capitalistas do Vale, como os Bauer, Renaux, Hering que investiam em fábricas de papel e tecido, e até um grande banco, o INCO – Banco Indústria e Comércio – porque aqui eram recebidos por líderes de expressão. Agora, nosso porto virou trapiche único e seu arrendatário mora na Europa. Itajahy era grande quando seu porto constituía-se de diversos trapiches particulares e seus proprietários eram vistos frequentando a missa dominical do padre Vendelino, participando das reuniões da Associação Comercial, freqüentando Estrella        d’Oriente ou Guarany, torcendo pelo Barroso, Marcílio, Lauro Müller ou Estiva Foot-Ball Club. José Eugênio Müller e Fiuza Lima fizeram uma cidade dentro da nossa cidade em duas décadas. Esses sim, podemos considerar empresários que fizeram a história de nossa cidade. Claro que temos exceções nos dias de hoje, como é o caso do Júlio d’Ávila, mas também não o vejo por aí pensando a cidade, se comprometendo com seu futuro.

Sem Censura: Estamos condenados a não termos futuro?

Magru: Não sou tão pessimista assim. Quem olha para frente sempre olha com esperança. Se faço uma análise crítica com matizes negativos é justamente para instigar as pessoas à reflexão de sorte a propor mudanças na trajetória histórica que estamos cursando. Uma trajetória que está nos condenado à vida no mangue. Mas eu consigo ver o mar com águas limpas. Ele está nos olhos da nossa juventude. Quando vejo gente da qualidade política de Rubens Angioletti, Robison Coelho, Nikolas Reis e Anna Carolina Martins, fico esperançoso. Gente que estudou e tem compromisso comunitário. Gente que tem condições intelectuais e morais de nos tirar desse mangue a que nos condenaram Jandir Bellini e Volnei Morastoni.

Sem Censura: Por onde começamos a construir esse futuro?

Magru: Devemos dar força aos jovens [Rubens Angioletti, Robison Coelho, Níkolas Reis e Anna Carolina Martins] para que suas lideranças ganhem corpo e autoridade política. Devemos estimular a composição de um grande pacto político a favor de Itajahy, começando pelo voto preferencial em nossos candidatos jovens. Quem mora em Itajahy deve votar em candidatos a deputado estadual e federal aqui de Itajahy que enseje renovação. Hoje temos um grande colégio eleitoral composto de gente que mora em Itajahy, mas tem sua identidade vinculada a outro canto do estado, e por isso vota em candidatos de Chapecó, Tubarão, Lages. O município sofreu um grande fluxo migratório e perdeu por completo sua própria identidade. Não é só o eleitor que não tem identidade com a cidade, o próprio município perdeu sua identidade. Então temos de ter uma liderança política que refaça esse pacto entre os jovens políticos credenciados a nos liderar rumo ao futuro e essa maioria de eleitores. O problema é que não vejo como um Volnei Morastoni ou Jandir Bellini vai coordenar esse pacto. O prefeito está preocupado em eleger seu filho deputado e isso é muito pouco para quem pretende pensar o futuro da cidade.

Sem Censura: Voltando à questão histórica da formação de Itajaí. Você concorda que devemos comemorar o bicentenário de fundação no ano de 2020?

Magru: Aceito a ideia de comemorar o bicentenário apesar de não concordar com os historiadores que afirmam ter sido Vasconcelos Drummond o fundador da cidade. O bicentenário de Itajahy deve ser um evento que estimule nossa gente a pensar sobre nossa história. Valorizar nossos nomes, nossos feitos, nossas conquistas. Independente de estabelecermos ou não consenso acerca da fundação da cidade por Drummond, temos de aproveitar a oportunidade para definir nossa história. Para tanto proponho que a Prefeitura, através da Fundação Cultura e Fundação Genésio Miranda Lins, componha uma Comissão de Especialistas para dar forma ao conteúdo histórico que atualmente está disperso. Não é o caso de estabelecer uma história oficial, mas uma história cujo conteúdo estabeleça alguns pontos de inflexão sobre todo o processo colonizador que está na gênese da cidade. Eu já deixei na Biblioteca Pública e no Arquivo Histórico cópia de um livro onde copilei mais de cem textos sobre o tema. Reuni em apenas um volume tudo o que encontrei até aqui sobre a fundação de Itajahy – de Vasconcelos Drummond a José Ferreira da Silva. Seria o caso de pegar esse material, colocar em mãos de historiadores e memorialistas, para definir alguns pontos básicos ainda lacunares em nossa história. O que não dá é ver Blumenau comemorando a data de 1850 e Brusque 1860, enquanto que Itajahy comemora apenas o 15 de junho 1860. O pai é mais novo que os filhos? Um absurdo.

Sem Censura: Qual sua tese sobre a fundação de Itajahy?

Magru: Na minha visão, Itajahy teve um processo histórico muito próximo daquele delineado por Fustel de Coulanges para a criação de Roma. Não tivemos um fundador como Blumenau ou Brusque. Itajahy foi se formando aos poucos, por obra de muitos. No início era gente esparsa, posseiros, arrendatários, meeiros, sesmeiros, faiscadores de ouro, escravos libertos, aventureiros, criminosos fugidios… gente que foi chegando e foi ficando à beira dos nossos rios e ribeirões, à sombra do grande vale, por conta própria e risco. Duas dispersões populacionais foram fundamentais para a nossa formação. A primeira grande dispersão foi promovida quando da invasão espanhola à Ilha de Santa Catharina (em 1777) que espalhou gente por todo o litoral norte de Santa Catarina e transferiu a indústria da caça à baleia para Penha, formando a Armação de Itapocoroy. A segunda foi o desmanche dessa indústria baleeira que espalhou gente pelo nosso Vale.

Sem Censura: Não entra na história os contingentes de imigrantes europeus que aqui formaram as grandes colônias no Vale do Itajaí?

Magru: Esse fluxo imigratório foi muito importante. A primeira colônia que influenciou diretamente na história de Itajahy, e os historiadores simplesmente menosprezam por completo essa influencia, foi aquela fundada na Enseada das Garoupas (atual Porto Belo) intitulada de Nova Ericeira e composta por portugueses continentais (em 1817). A vinda de Drummond para a região está diretamente vinculada a esta colônia. Depois tem o processo colonial dentro do próprio Vale do Itajahy: Gaspar, Ilhota, Blumenau, Brusque. Mas, quando os colonizadores adentram o Vale, já o fazem tendo a orientação segura dos moradores da freguesia estabelecida na foz do Rio Itajahy como Agostinho Alves Ramos e José Henrique Flores.

Sem Censura: Qual sua tese sobre a fundação de Itajaí, considerando que descarta que a cidade tenha sido fundada por Vasconcelos de Drummond ou Agostinho Alves Ramos?

Magru: Defendo a tese de que devemos comemorar como data de fundação simbólica o dia 25 de janeiro de 1824, que foi o dia da assinatura do requerimento dos moradores do Districto de Itajahy ao bispado do Rio de Janeiro, pedindo a separação territorial e a criação de um curato. Foi nessa data que tivemos pela primeira vez a reunião de 21 moradores da região do baixo Itajahy. Foi o primeiro ato comunitário devidamente registrado em documento oficial. Antes dessa data tínhamos na região gente dispersa, andando à matroca, cada um cuidando da sua própria vida. Obviamente que nesse documento já encontramos o espírito de liderança de Agostinho Alves Ramos e frei Antônio Pedro de Agote. Quero crer que as presenças desses dois líderes foram fundamentais. As pessoas estavam estabelecidas em toda a região, mas a comunidade ainda não existia. Por isso, quero crer, se fosse obrigatório escolher o nome de um fundador daria esta honra a Agostinho Alves Ramos. Mas, prefiro defender a tese do núcleo fundador formado pelos 21 moradores que assinaram o documento do dia 25 de janeiro. Esses são os nossos pioneiros.

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