Tratar gente como gente

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É unânime que em Itajaí aumentou consideravelmente o número de moradores em situação de rua. Antes o itajaiense, de certa forma, “acolhia” essas pessoas quando era abordado: dava moedas, comprava um pão. Hoje, toda a compaixão virou irritação, preocupação e medo.

Em cada semáforo, seja no Centro ou nos bairros mais afastados, na maioria das vezes o que se vê são usuários de drogas que não tendo sucesso como pedintes acabam praticando pequenos furtos. Pessoas tão desprestigiadas pela sociedade e pelo poder público que optam por invadir prédios abandonados ou públicos para dormir ou se proteger da chuva ou do frio, como foi a triste história da Igrejinha Imaculada Conceição.

Desde o início do ano a prefeitura de Itajaí tem dado a justificativa clássica de que a abordagem social acontece, mas que as pessoas só se ajudam se quiserem. Os que querem, são encaminhados para o abrigo, aonde podem se higienizar e dormir, alguns ganham passagem para retornar para a cidade de origem, outros se internam para tratar da dependência química.

Contudo, meses se passaram e mais do que visível está que o problema aumentou, concluindo que o trabalho está sendo ineficiente ou insuficiente.

O problema que atualmente sofre Itajaí já é conhecido por várias cidades em todo o Brasil e desde o ano de 2009 foi instituída no país a Política Nacional para População em Situação de Rua que possui, entre os requisitos para aplicabilidade, a criação de comitês gestores intersetoriais para atender este público e superar a situação de rua, o que ainda não possuímos.

Temos que parar com o pensamento raso e desumano de que somente distribuindo cobertores, dando banho e abrigo provisório é o suficiente para acabar com o problema. Tirar temporariamente das ruas é apenas maquiar a situação. Estamos falando de seres humanos e estes, em particular, são excluídos da sociedade por falta de vínculo familiar, desemprego, doenças ou vícios. Cabe ao poder público, antes de tudo, identificar o perfil dessas pessoas para assim começar a resolver o problema.

Adianta justificar que o poder público oferece internação para os usuários de drogas em situação de rua se é de conhecimento público que nem vagas em abrigos especializados tem? Se os familiares são de Itajaí, será que a Prefeitura tem feito o trabalho adequado na tentativa de reiniciar o vínculo com a família? Será que não é uma pessoa querida por alguém que desconhece essa situação? Será esse morador de rua uma pessoa desaparecida para a família?

E se essas pessoas vêm de outras cidades, será que a abordagem já não deveria acontecer no terminal rodoviário, da forma que ocorreu durante anos? Qual é o atrativo da nossa cidade para essas pessoas?

Essas pessoas estão saudáveis e à procura de emprego? Será que uma das dificuldades de não conseguir empregos e atendimentos nos órgãos públicos é por conta do extravio de documentos?

Já passou da hora de a Prefeitura de Itajaí discutir esse problema com a sociedade, fazendo campanhas de conscientização em todos os níveis, explicando o quanto é prejudicial dar esmola e como realmente qualquer um pode ajudar.

Recentemente li que a Prefeitura de Itajaí teria uma nova casa de abrigo. Reconheço que é preciso, mas nunca me vangloriaria com essa medida. Me orgulharia sim, em tratar pessoas como seres humanos que são, tentando ressocializar. Tirar das ruas e colocar no abrigo é esconder e sustentar o problema, e não resolvê-lo.

Há também que se reconhecer o empenho e dedicação de toda a equipe envolvida na abordagem e acolhimento, que fazem o seu melhor nas parcas condições que a prefeitura lhes dispõe e também destacar o trabalho das ONG´s e instituições religiosas que não tratam com indiferença esse problema, atuando na distribuição de alimentos, roupas, cobertores e abrigos.

Contudo, prefiro não acreditar na informação de que algumas pessoas nessa situação estão sendo abordadas e retiradas das ruas com o caminhão do “cata treco”, muito menos que cargos comissionados falam em “higienização das ruas” e, para isso, passaram a fazer até o uso de máquina de choque. Não na administração cujo prefeito prometeu ser “humanizada”.

Sabemos que não é atual e nem simples resolver o problema dos moradores em situação de rua. Mas tratar essa gente, como gente, já é um bom começo.

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