Entrevista: Irmã Mércia Lemes – Diretora geral do Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen

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Necessitando ajustar os recursos, para conseguir manter os 75 mil atendimentos mensais, o Hospital Marieta sofre dia a dia para conseguir deixar as portas abertas. Referência em cirurgias, em várias especialidades médicas, referência também na captação de órgãos, a unidade vive o drama do déficit financeiro. Ainda assim, consegue se sobressair na área da saúde em Santa Catarina. Se é assim, sem recurso, imaginem, então, se houvesse dinheiro para realizar tudo de maneira mais eficaz. Para tentar reverter o quadro, a direção que está há dois anos à frente do Hospital busca recursos com o governo e acabou de lançar uma campanha tentando o apoio da comunidade. Nesta edição, conversamos com a diretora geral do Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen, Irmã Mércia Lemes.

JSCO Hospital Marieta está nas ruas com uma campanha buscando apoio da comunidade em geral. Por que realizar esta campanha?

Irmã MerciaEsta campanha é fundamental para equacionarmos nosso déficit financeiro que hoje ultrapassa R$500 mil. Atualmente, o Hospital Marieta tem um percentual de atendimentos que ultrapassa 90% de usuários provenientes do Sistema Único de Saúde (SUS) e por si só este já se torna um grande desafio, pois a tabela é deficitária e há 14 anos não tem seus valores reajustados. Qualquer pessoa física pode ajudar, ligando para o número 0800 608 0054 e doar qualquer quantia. O valor pode ser debitado na conta da Celesc, ser pago via boleto bancário ou depositado em conta corrente no Banco do Brasil (Ag. 0305-0 | cc 95220-6) e da Caixa Econômica Federal (Ag. 0416 | cc 00235-2). Vale reforçar que este tipo de campanha já é utilizado por outros hospitais do Brasil de maneira muito eficiente. Nossa meta é chegar a 30 mil doadores no primeiro ano da campanha. E de pouco em pouco pretendemos atingir nossas metas. Aproveito para agradecer quem está contribuindo conosco na campanha “Fazer o bem sem olhar a quem”.

JSCE caso as empresas queiram contribuir?

Irmã MerciaAs empresas poderão doar diretamente junto ao hospital pelos modelos já praticados junto à pessoa física, bem como através da Associação Madre Teresa, com o projeto Investidor Social, pagando mensalidades que serão transformadas em obras. Com eles, o Hospital Marieta já conseguiu reformar quartos, comprar equipamentos e dar mais qualidade de vida e humanizar o atendimento aos pacientes.

JSCA tabela SUS defasada é o que gera a diferença negativa de orçamento?

Irmã Mercia Sim, a tabela apresenta uma série de procedimentos atualmente defasados. Na prática, a cada R$100 de custo com um atendimento realizado a um paciente do SUS, o Hospital Marieta recebe apenas R$60, inviabilizando qualquer atividade operacional. Por exemplo, um parto normal custa R$ 1.391 (sem acrescentar honorários médicos), quando o SUS nos reembolsa apenas o montante de R$ 443. A diária de UTI é o nosso maior problema, já que faltam leito sem toda a região, e é um setor de retaguarda para todas as outras áreas, como procedimentos cirúrgicos e pronto socorro. O custo diário é R$ 2.081 e o SUS repassa R$ 438. Assim podemos avaliar diversos exemplos semelhantes, que juntos corroboram para este resultado nefasto.

JSCMas o Hospital Marieta não tem ajuda governamental? De onde vem a verba que sustenta os serviços?

Irmã MerciaHoje temos três fontes de recebimento: recursos do SUS, mais aportes dos Governos Federal, Estadual e Municipal, os planos de saúde e temos também aquelas pessoas que pagam particular. O Governo do Estado nos ajuda com um importante recurso que financia parte da folha de pagamento, parte da conta de energia elétrica e parte da conta de água. Antes era R$ 600 mil, mas a partir de julho deste ano subiu para R$ 1 milhão. É um recurso importante, mas não é suficiente, porque ainda temos um desafio grande pela frente. A prefeitura de Itajaí tem um convênio firmado e nos subsidia um valor mensal de R$ 280 mil. Nos últimos três meses, a prefeitura contribuirá com mais R$ 400 mil mensais, na intenção de mantermos em atividade a Unidade Padre Pio.

JSCRecentemente foi divulgado o possível fechamento da Clínica Padre Pio. Como está esta situação?

Irmã MerciaA situação ainda é preocupante a despeito de todo apoio que temos recebido para que não ocorra o fechamento da unidade. Apesar disso, conforme informado anteriormente, o recurso prometido é temporário e será finalizado neste mês. Existe uma movimentação da prefeitura municipal para que este recurso seja rateado com os municípios da Amfri, tendo em vista que a ocupação do Hospital Marieta, de modo geral, é realizada 40% por estes municípios (fora Itajaí).

JSCO que acontecerá se a Clínica Padre Pio for realmente fechada?

Irmã MerciaO fechamento de qualquer parte do Hospital Marieta pode trazer uma série de problemas e limitações de atendimentos. A Clínica Padre Pio é uma unidade de alta complexidade onde tratamos casos graves, sendo que o fechamento limitará o volume de atendimentos no Marieta.

JSCQual a estrutura atual do Marieta e como deve ficar com a inauguração do Complexo Madre Teresa?

Irmã MerciaO Hospital Marieta tem cerca de 1,1 mil colaboradores e um corpo clínico formado por cerca de 310 médicos. São 380 leitos ativos, sendo 30 de UTI adulto, 10 leitos de UTI neonatal e oito leitos de uma semi-intensiva neonatal. A inauguração do Complexo Madre Teresa deve mudar o atendimento, mas é importante frisar: o que temos garantido é o final da obra, não o aparelhamento. Ou seja, ainda teremos que correr muito atrás de recursos para colocar a estrutura em pleno funcionamento. E depois disso, buscar novos parceiros para que as contas fechem, já que deverá aumentar muito o custo das nossas operações. Com o complexo, praticamente dobraremos o número de leitos e atendimentos, o mesmo deverá ocorrer com o número de médicos, enfermeiros e outros colaboradores. Tudo isso gera custo mensal, que precisaremos buscar de alguma maneira.

JSCComo foi feita a obra da Unacon? De onde partiu esse recurso?

Irmã MerciaA verba de R$ 800 mil foi disponibilizada via acordo com o Ministério Público Estadual em suas compensações ambientais. A obra levou 120 dias para ficar pronta e já atende cerca de 17 mil pacientes com câncer ativos no nosso cadastro. A reforma da Unidade de Alta Complexidade em Oncologia consistiu na ampliação e reforma da estrutura já existente. Foram instaladas novas bancadas, cortinas divisórias, guichês, louças e metais sanitários e demais instalações prediais para dar mais conforto aos pacientes e acompanhantes. Para nós, é uma alegria oferecer um atendimento humanizado à nossa população.

JSCHá outros projetos interessantes e importantes para a comunidade, como o Latin. Como funciona?

Irmã MerciaBem, temos vários projetos importantes que merecem destaques, ex: Banco de Leite, UTI Neonatal, Gestão de alto risco, dentre outros. O Projeto Latin ajuda no tempo/resposta do atendimento ao paciente o que assegura maior sobrevida àqueles que estão com dor torácica e probabilidade de infarto. Isso em parceria com duas Unidades de Pronto Atendimento de Itajaí. Quando o Hospital recebe a informação, os funcionários e médicos já estão a postos e logo o atendimento é realizado. Reduzimos o tempo, seqüelas e mortalidades com um trabalho realizado por uma equipe multiprofissional. O grande objetivo é salvar vidas.

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